Sunday, March 18, 2007

"1984", uma lenda da publicidade

Em 1984, para apresentar o lançamento de seu inovador computador pessoal, o Macintosh, a Apple praticamente parou os Estados Unidos, e consequentemente o mundo. Até hoje, é considerado um dos lançamentos mais célebres da história da publicidade.
Um filme explosivo de 1 minuto criado pela agência Chiat/Day de Los Angeles, hoje incorporada à TBWA, foi exibido no Estádio Houlihan, em Tampa (Flórida, EUA) no intervalo da final do Super Bowl, o campeonato de futebol norte-americano, para as 70 mil pessoas presentes e os cerca de 80 milhões de telespectadores que acompanhavam o jogo pela TV.

Esta, que é aclamada como uma das melhores peças publicitárias de todos os tempos e nem ao menos mostra o produto, custou 1.6 milhão de dólares e foi veiculada apenas uma vez. E como o intervalo do SuperBowl é considerado o minuto mais caro para a publicidade, apenas a veicularão do comercial custou 500 mil dólares
A produção e direcção do filme ficou por conta de Ridley Scott, consagrado por filmes clássicos como Alien (1979) e Blade Runner (1982). O cenário do anúncio é o sombrio mundo descrito por George Orwell no livro 1984, no qual o Grande Irmão (Big Brother) reunia a população mentalmente escravizada para sessões diárias de lavagem cerebral.

Scott realizou o mesmo ambiente escuro no filme, e enquanto pessoas assistem passivas ao discurso do Grande Irmão, no fundo, uma mulher vestindo roupas atléticas que contrastam com a escuridão, corre em direcção ao talão com um martelo de arremesso nas mãos.

As referências à IBM vão desde os princípios hierárquicos rígidos até o uso obrigatório de uniformes dentro da empresa na ocasião. Nesse contexto, a tela onde fala o Grande Irmão se assemelha a um monitor de computador, e códigos de informática podem ser claramente identificados.

O desenho na camiseta da
atleta é uma maçã, logotipo da Apple, e um monitor com teclado estilizados. A mulher destoa do resto do ambiente, mostrando que o Macintosh traz cor e vida para o mundo da computação, prazer estético e lazer, ao contrário do azulado e frio da IBM até então.

Também fica clara a relação do orgânico contra o inorgânico, afim de demonstrar a proposta da Apple de criar uma máquina como se fosse um 'ser vivo'. O design mais gestual acentua essa característica, que continua vigente até hoje, vide os iMac's

No livro de Orwell, a classe tr
abalhadora era formada apenas por homens brancos. No comercial, a mulher representa uma quebra deste paradigma, além de ser uma figura politicamente igual, é atenta aos poderes repressivos do capitalismo e usa tácticas

Por ser uma atleta, demonstra o treinamento rigoroso de seu corpo, um protesto contra os corpos dóceis e sujeitos as massas roborizadas. Aliás, vemos as pessoas mostradas estritamente como máquinas trabalhadoras, controladas por computadores.

Como se vê, o comercial carrega diversos manifestos contra uma série de fatos, incluindo o capitalismo, a repressão e desigualdade sexual, racial e económica. Não é a toa que se tornou tão célebre e cultuado. Intitulado logicamente de "1984", o filme ganhou diversos prémios, incluindo o Grand Prix no Festival de Cannes.



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